Contos de fadas

Sunday, July 17, 2005

Barba Azul

Charles Perrault

Há algum tempo atrás, havia um homem que tinha belas casas tanto na cidade como no campo, negócios de ouro e prata, rica mobília e carruagens todas adornadas com ouro. Mas esse homem teve o azar de ter uma barba azul que o fazia tão horrivelmente feio que todas as mulheres e garotas fugiam dele.

Uma de suas vizinhas, uma nobre dama, tinha duas filhas, ambas muito bonitas. Ele queria casar-se com uma das filhas, deixando à nobre dama a escolha de que filha seria entregue a ele. Nenhuma das duas o queriam, uma ficava empurrando o casamento pra outra, não suportando a idéia de casar-se com um homem que tinha a barba azul. Para aumentar o desgosto e a aversão que elas sentiam por ele, havia o fato de que ele já havia se casado várias vezes e ninguém sabia o que havia ocorrido a essas mulheres.

Barba Azul, para ganhar a afeição delas, levou-as, com sua mãe, três ou quatro damas de companhia e outros jovens da vizinhança, para uma de suas casas de campo, onde ficaram durante uma semana.

O tempo era ocupado com festas, caçadas, pescarias, dança, alegria e descanso. Ninguém foi dormir, mas todos passaram a noite conversando e brincando uns cons os outros. Resumindo, correu tudo tão bem que a filha mais nova começou a pensar que a barba do homem não era tão azul assim e que ele devia ser um cavalheiro muito cortês.

Logo que voltaram para casa, o casamento estava feito. Cerca de um mês depois, Barba Azul disse à sua esposa que tinha que fazer uma viagem importante pelo país e que ficaria fora por pelo menos seis semanas. Ele desejava que ela se divertisse enquanto ele estivesse fora: que mandasse buscar amigos e conhecidos, levasse-os ao campo, se quisesse, e que comesse do bom e do melhor.

"Aqui estão," ele disse,"as chaves para os dois guarda-roupas grandes, onde guardo as melhores peças. Estas são as das louças e talheres de ouro e prata, que não usamos no dia a dia. Estas abrem meus cofres onde guardo meu dinheiro, ouro e prata; estas são do meu esquife de jóias. E esta é a chave mestra para todos os quartos do castelo. Mas esta pequena aqui, esta é a chave do closet que fica no final do corredor no térreo. Pode abrir tudo, pode ira aonde quiseres, exceto no closet. Lá eu a proíbo de ir, e proíbo de tal maneira que se você abri-lo pode se preparar para toda minha raiva e ressentimento."

Ela prometeu obedecer exatamente ao que ele havia pedido. Então, depois de abraçá-la, entrou na sua carruagem e se foi.

Suas vizinhas e amigas não esperaram para ir à casa da jovem esposa. Elas estavam impacientes para ver a rica mobilha da casa e não quiseram ir enquanto o marido lá estava por causa da sua barba azul que muito as assustava. E elas correram por todos os quartos, vestiários e guarda-roupas, e cada uma era mais rico e lindo que o outro.

Depois disso, elas subiram para os dois quartos maiores onde ficavam as maiores riquezas. Elas não podiam admirirar suficientemente a quantidade e beleza da tapeçaria, as camas, sofás, mesas e espelhos nos quais podia-se ver dos pés à cabeça; alguns deles tinham molduras de vidro, outros de prata, outros douradas, os melhores e mais magníficos que elas já tinham visto.

Não paravam de exagerar e invejar a felicidade da amiga, que não estava se divertindo muito a olhar todas aquelas riquezas, pois estava impaciente para ver o que havia no pequeno closet do térreo. Sentiu-se tão pressionada por sua curiosidade que, sem considerar que era uma indelicadeza deixar as visitas sozinhas, desceu a pequena escadinha com tanta pressa que quase caiu e quebrou o pescoço.

Chegando à porta do closet, aí se deteve algum tempo, lembrando-se da proibição que o marido lhe fizera e considerando que lhe poderia acontecer uma desgraça por haver sido desobediente; mas a tentação era tão forte que ela não a pôde vencer. Pegou a pequena chave, e, trêmula, abriu a porta do gabinete. A princípio ela não conseguiu ver nada lá dentro, pois as janelas estavam fechadas. Depois de alguns instantes ela percebeu que no chão, que estava coberto de sangue coagulado, havia corpos de várias mulheres mortas, ocupando todo o espaço do closet. (Estas eram todas as mulheres com as quais Barba Azul havia se casado e as quais ele havia assassinado, uma depois da outra). Ela achou que ia morrer de medo, e a chave, que ela tinha tirado da fechadura, caiu de sua mão.

Depois de se recuperar um pouco do susto, ela pegou a chave, trancou a porta e subiu para seu quarto para descansar; mas ela não conseguia, pois ainda estava muito assustada. Observando que a chave estava manchada de sangue, ela tentou duas ou três vezes limpá-la; mas o sangue não saía; em vão ela lavou a chava e até esfregou com sabão e areia. O sangue continuava lá, pois a chave era mágica e ela nunca coseguia limpá-la. Quando conseguia tirar o sangue de um lado, ele voltava no outro lado.

Barba Azul voltou de sua viagem no fim daquele mesmo dia, dizendo que, no caminho, recebera notícias de que o negócio que o levara a partir acabara de realizar-se com vantagem para ele. A mulher fez quanto pôde para se mostrar encantada com esse breve retorno.

Na manhã seguinte ele pediu que ela lhe desse as chaves. Ela as devolveu, mas com as mãos tão trêmulas que ele facilmente percebeu o que havia acontecido.

"Por que" disse ele, "a chave do closet não está junto com as outras?"

"Eu," disse ela, "devo tê-la deixado lá em cima, sobre a mesa."

"Então," disse Barba Azul, "traga-me ela logo."

Depois de muito enrolar, ela foi forçada a levar a chave para ele. Barba Azul, depois de examinar atentamente a chave, perguntou a sua esposa: "Por que a chave está manchada de sangue?"

"Eu não sei," gritou a pobre mulher, mais pálida que a morte.

"Você sabe!" retrucou Barba Azul. "Eu sei muito bem. Você entrou no closet, não entrou? Muito bem, madame; você vai voltar lá e tomar seu lugar junto às outras senhoras que você viu."

Diante disso, ela se jogou aos pés do marido e and implorou seu perdão com todos os sinais de verdadeiro arrependimento, prometendo que nunca mais seria desobediente. Ela teria feito uma rocha derreter-se, tão linda e triste ela estava, mas o coração de Barba Azul era mais duro que qualquer rocha!

"Você deve morrer, madame," ele disse, "e já."

"Já que tenho que morrer," respondeu ela (olhando-o com seus olhos cheios de lágrimas), "dê-me um pouco de tempo para rezar minhas preces."

"Eu darei sete minutos," respondeu Barba Azul, "nenhum segundo a mais."

Quando ela notou que estava sozinha, chamou sua irmã e disse-lhe: "Anne, minha irmã, suba para a torres, eu te peço, e veja se nossos irmãos estão chegando. Eles prometeram que viriam hoje. Se você os vir, faça algum sinal para eles se apressarem."

Anne subiu para a torre e a pobre mulher aflita gritava de tempos em tempos "Anne, minha irmã, vês alguém vindo?"

E a irmã dizia: "Não vejo nada além de uma nuvem de poeira sob o sol e o campo verde."

Neste meio tempo, Barba Azul, segurando um grande sabre, gritou o mais alto que pôde: "Desça agora, ou irei até aí."

"Mais um momentinho, por favor," disse a mulher; e então, bem baixinho ela falou: "Anne, minha irmã, vês alguém vindo?"

E Anne respondia: "Não vejo nada além de uma nuvem de poeira sob o sol e o campo verde."

"Desça logo," gritou Barba Azul, "ou irei até aí."

"Estou indo," respondeu a mulher; e então gritou: "Anne, minha irmã, vês alguém vindo?"

"Eu vejo," respondeu a irmã, "uma grande nuvem de poeira se aproximando."

"São meus irmãos?"

"Oh, não minha irmã, eu vejo apenas um rebanho de ovelhas."

"Você não vai descer?" gritou Barba Azul.

"mais um momentinho," disse a esposa, e então ela gritou: "Anne, minha irmã, vês alguém vindo?"

"Eu vejo," disse ela, "dois homens a cavalo, mas eles ainda estão muito longe."

"Graças a deus," respondeu a esposa. "São meus irmãos. Vou fazer um sinal, o melhor que eu puder, para fazê-lo se apressar."

Então Barba Azul gritou tão alto qu a casa inteira tremeu. A mulher angustiada desceu e se jogou aos pés de seu marido, chorando e com os cabelos revirados.

"Isso não significa nada," disse Barba Azul. "Você deve morrer!" Então, segurando os cabelos da mulher com uma mão e erguendo a espada com a outra, ele preparou-se para decapitá-la. A pobre mulher, voltando-se para ele, olhando-o com olhos moribundos, pediu que ele lhe desse um tempinho para ela se recompor.

"Não, não," ele disse, "recomponha-se com deus." e já ia erguendo o braço para cortar-lhe a garganta.

Neste exato momento houve uma batida tão forte no portão que Barba Azul parou derrepente. O portão estava aberto e os dois homens entraram. Desembainhando suas espadas, eles se dirigiram diretamente a Barba Azul. Ele sabia que aqueles eram os irmãos da sua esposa, um era um dragão, o outro, um mosqueteiro. Então ele tentou fugir imedaitamente para se salvar; mas os dois irmãos o perseguiram e o pegaram antes que ele chegasse aos degraus da entrada. Eles o atravessaram com suas espadas e o deixaram morto. A pobre mulher estava quase tão morta quanto seu marido, e não tinha forças para erguer-se e cumprimentar seus irmãos.

Como Barba Azul não tinha herdeiros, sua mulher tornou-se dona de todos os seus pertences. Ela usou parte destes bens para casar sua irmã Anne com um jovem cavalheiro que estava apaixonado por ela há bastante tempo; outra parte ela usou para comprar títulos de nobreza para seus irmãos, e o resto ela usou para casar-se com um cavalheiro muito bom que a fez esquecer-se do sofrimento que ela passou com Barba Azul.

Moral:
A curiosidade, apesar de seus atrativos, geralmente traz profundo arrependimento.
Para o desgosto de muitas mulheres, essa alegria dura pouco.
Uma vez satisfeita a curiosidade, ela deixa de existir, e sempre custa caro.

Outra moral:
Nenhum marido dos dias de hoje seria tão terrível e cruel mandando sua esposa fazer algo impossível.
Então, seja qual for a cor da barba do marido, a mulher de hoje o mostrará quem é que manda.


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Source: Andrew Lang, The Blue Fairy Book (London: Longmans, Green, and Company, ca. 1889), pp. 290-295.

Lang's source: Charles Perrault, "La Barbe bleüe, "Histoires ou contes du temps passé, avec des moralités: Contes de ma mère l'Oye (Paris, 1697).

Edited by D. L. Ashliman.

Aarne-Thompson type 312.

3 Comments:

  • legal essa historia
    eu a amo








    isabella m.c

    By Anonymous Anonymous, at 5:12 PM  

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    By Anonymous Anonymous, at 9:08 PM  

  • Na vdd a moral que vc postou está totalmente equivocada...
    O conto tem fundo psicológico, é cheio de simbolismos... e muito mais profundo que vc possa imaginar e vivemos eles muitas vezes sem ter consciência. Barba azul é o predador da psique, geralmente acontece qdo vc está adquirindo um nível de consciência maior e ele vem projetado em uma pessoa pra justamente impedir que vc se desenvolva e mtas vezes ficamos prisioneiros sem nem nos dar conta. Quem conseguir lê-lo por traz do simbolismo vai entender o que estou falando. Eu já estive nas mãos do barba azul incontáveis vezes e posso dizer com propriedade o quanto é difícil primeiro aceitar a situação, enxergar e depois sair dela. O arquétipo do barba azul é traiçoeiro, mto poderoso, não há como medir forças com ele. Naum podemos com ele. E ele nos envolve qtas vezes aparecer se não estivermos alerta. Ele hipnotiza, é como uma DROGA, que vc toma e naum consegue mais parar por mais que ela esteja acabando com vc, por mais que vc sinta todos os dias morrer um pouco. Vc naum consegue, é forte de mais, hipnotizante de mais. E o estrago é sempre bem feito, naum existe outro final pra quem se depara com ele que seja diferente de muita dor e perda. Não se engane. Tentei inúmeras vezes de inúmeras formas mudar esse final, mas ele é sempre o mesmo. O barba azul é uma verdadeira tocaia. Se conseguir identificá-lo na sua vida, corra o qto puder.

    By Blogger Bruna Gaspar, at 11:35 AM  

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